O Brasil no mapa da pólio: como evitar essa volta?

Por Aurea Santos, especialista em Comunicação no escritório do Rotary International no Brasil

De 1968 a 1989, o Brasil registrou mais de 26 mil casos de poliomielite. Esse registro, porém, parece ter desaparecido da memória dos brasileiros e levado a população a acreditar que a pólio não é mais uma ameaça por aqui. Mas ela é, e essa ameaça tem se tornado cada vez mais próxima.

O último caso de infecção pelo poliovírus selvagem no Brasil foi na cidade de Souza, na Paraíba, em 1989. Porém, o Brasil não atinge o índice de 95% de cobertura vacinal para a doença desde 2016, colocando nosso país em um risco muito alto para a volta da pólio, segundo a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS).

Vacinar é fundamental: uma pessoa doente pode passar o vírus para outra cinco

Marcelo Haick, curador da Fundação Rotária e consultor nacional de Advocacia para a Pólio do Rotary International, afirma que a pandemia de Covid-19 influenciou no agravamento da baixa cobertura vacinal. Porém, ele aponta outros fatores que afetam a imunização das crianças brasileiras.

“Existem causas totalmente vinculadas a questões de infraestrutura. Por exemplo, aspectos ligados ao acesso a unidades básicas de saúde ou aspectos econômicos, nos quais as famílias têm dupla jornada, tripla jornada de trabalho e (ainda) precisam levar as crianças para as unidades. Muitas vezes, os locais são escuros e inseguros. As unidades básicas não funcionam em horários mais vantajosos (para as famílias) e há também o fato de, muitas vezes, terem poucos profissionais disponíveis para o atendimento”.

Outros aspectos também contribuem para a baixa taxa de aplicação da vacina da pólio. Entre eles estão a disseminação de notícias falsas sobre efeitos adversos das vacinas, a falta de contato de médicos jovens com casos reais de poliomielite e uma variedade maior de vacinas a serem aplicadas atualmente nas crianças.

E como podemos colocar em números esse risco da volta da poliomielite ao Brasil? Leonardo Weissmann, médico infectologista do Instituto Emílio Ribas e membro especialista da Comissão Nacional Polio Plus, nos ajuda a entender melhor esse risco e suas consequências.

“O Brasil não atinge a meta de 95% de cobertura vacinal da pólio em crianças menores de um ano desde 2016. No ano passado, essa taxa ficou em 69,93%”, destaca. “De acordo com estudos, o número básico de reprodução da poliomielite (R0) é de aproximadamente cinco, ou seja, uma pessoa doente pode transmitir o vírus a outras cinco. Para que isso aconteça, basta encontrar pessoas suscetíveis (não vacinadas) associado a um sistema de vigilância fraco”, explica.

A vigilância a que ele se refere é o monitoramento pelas autoridades de saúde da circulação do vírus nos sistemas de esgoto, por exemplo. Foi essa vigilância que tornou possível a detecção do vírus da pólio no estado de Nova York, nos Estados Unidos, este ano.

Defesa da vacina no Brasil

Promover a vacinação no Brasil, mesmo com a doença erradicada aqui há mais de 30 anos, é fundamental para evitar o retorno da poliomielite ao país. Para isso, o Rotary realiza um trabalho intenso de advocacia, ou defesa da causa.

“A gente trabalha há mais de oito anos no relacionamento do Rotary com o Ministério da Saúde, principalmente, e também com a Organização Pan-Americana de Saúde”, conta Haick. “Em alguns estados, a gente conversa com as secretarias estaduais de saúde, mas o contato com as secretarias municipais é feito mais pelos próprios clubes”, detalha.

Na esfera federal, o Rotary faz parte de uma comissão nacional de erradicação da pólio, além de atuar junto ao Programa Nacional de Imunizações (PNI). Com isso, nossa organização acompanha o trabalho feito no combate à paralisia infantil e ajuda a fortalecer o programa, contribuindo para que não haja descontinuidade nos esforços de vacinação.

Haick destaca ainda o trabalho feito junto à OPAS para o fortalecimento da vacinação de rotina e a redução da dependência de campanhas vacinais.

“Se não conseguirmos efetivamente investir na vacinação de rotina e voltar a ter um acompanhamento constante da vacinação, trabalhando efetivamente junto aos formadores de opinião, a gente não pode ter sucesso”, explica. “A gente não pode só depender de campanhas, como a gente trabalha uma vez por ano, as campanhas de um mês”, aponta o curador da Fundação Rotária.

Vacinação e notícias falsas

Há anos, o Brasil conta com um programa de vacinação muito bem estabelecido. Porém, com a chegada da pandemia de Covid-19, e a necessidade do desenvolvimento de novas vacinas em tempo recorde, as notícias falsas sobre a vacinação se espalharam tão rapidamente quanto o novo vírus.

Para Haick, no entanto, o que a pandemia e o isolamento social trouxeram foi a “transformação de uma discussão essencialmente técnica em uma discussão com finalidades não-técnicas”.

Ele aponta que, para lidar com essa situação, é preciso que os especialistas da área se mobilizem para esclarecer quaisquer tipos de desinformação.

“Nós temos que trabalhar, por exemplo, com as universidades, com as sociedades médicas. Temos que trabalhar com a Associação Brasileira de Imprensa, com influenciadores, que têm um papel importante, com lideranças comunitárias. E eu acho que isso já está sendo feito de alguma forma. Nessa campanha atual de vacinação, a gente observou na grande mídia uma grande divulgação de informações técnicas”, destacou.

Além de tomar cuidado com as notícias falsas, é importante que a população se informe sobre os riscos reais das doenças que podem ser prevenidas com a vacinação.

Um fato pouco divulgado sobre a pólio, por exemplo, é que, apesar de a doença afetar principalmente crianças com menos de cinco anos, ela pode acometer pessoas de qualquer idade.

“Um exemplo disso é o que ocorreu com o presidente norte-americano Franklin Roosevelt, que ficou paralisado da cintura para baixo aos 39 anos de idade por pólio. Estudos indicam que a gravidade da doença é maior em adultos do que em crianças”, lembra Weissmann.

Por isso, é fundamental garantir a vacinação de todas as crianças contra a paralisia infantil, e também dos adultos que não foram vacinados na infância.

Desde 2016, o Programa Nacional de Imunizações adota a vacina VIP (injetável) nas três primeiras doses do primeiro ano de vida (aos 2, 4 e 6 meses de idade) e a VOP (oral) no reforço (entre 15 e 18 meses e entre 4 e 5 anos de idade) e campanhas anuais de vacinação.

“Para adultos, a recomendação atual é de vacinação para aqueles indivíduos que pretendem viajar para países nos quais a pólio é endêmica, com a vacina tríplice bacteriana acelular do tipo adulto (difteria, tétano e coqueluche) combinada à pólio inativada (VIP), disponível somente em clínicas privadas”, destaca o infectologista.

Vale lembrar ainda que, mesmo que a vacina da pólio tenha sido desenvolvida há décadas, os cientistas continuam trabalhando em seu aprimoramento. Recentemente, foi anunciada a criação de um novo tipo de vacina oral para a pólio do tipo 2 que, por enquanto, só é indicada para situações de surto da doença.

E se você não tem certeza de que alguma criança sob seus cuidados já recebeu a vacina contra a pólio, vá até um posto de saúde e leve a carteirinha de vacinação para um profissional de saúde conferir. A vacina contra a pólio está disponível gratuitamente em todo o Brasil. E eliminar a pólio é uma tarefa que está em nossas mãos.

3 respostas em “O Brasil no mapa da pólio: como evitar essa volta?

  1. Precisamos está atentos, tantas lutas tantas mobilizações uma grade esperança e agora novas ameaças, Rotarianos de maõs dadas vamos agir mais uma vez.

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