Rotary ajuda a dar mais sabor a projeto na Maré

Por Aurea Santos, especialista em Comunicação no escritório do Rotary International no Brasil

Para as mulheres da Maré, bairro do Rio de Janeiro que reúne 16 comunidades, a capacitação profissional em gastronomia é mais do que um caminho para o mercado de trabalho. Em um lugar que é casa para 140 mil pessoas, a gastronomia é uma porta aberta para a autonomia, para o empreendedorismo e para um empoderamento tão necessário a mulheres de baixa renda. E é nesse contexto que o Rotary Club do Rio de Janeiro se uniu à organização Redes da Maré em dois projetos em torno de uma cozinha e boa comida.

Em 2010, a Redes criou o projeto Maré de Sabores, que nasceu dentro de uma escola pública para capacitar as mães daqueles alunos a atuarem com gastronomia. A iniciativa despertou o interesse de mães de outras escolas, fazendo com que a ação crescesse e se tornasse um projeto de capacitação para as mulheres da Maré.

Projeto ajudou a dar novos rumos na carreira e na vida das participantes

Em 2017, o projeto já tinha passado para a Casa das Mulheres, espaço dedicado ao desenvolvimento das mulheres mareenses. A falta de equipamentos apropriados, no entanto, era um entrave ao bom funcionamento do projeto. Faltava uma estrutura de cozinha industrial para que as participantes pudessem ter um aprendizado adequado.

Assim, naquele ano, o Rotary Club do Rio de Janeiro, que já era parceiro da Redes da Maré em projetos na área de educação, resolveu embarcar nessa jornada. Em um projeto que contou com o apoio do Rotary Club de Weinhein, na Alemanha, e financiamento da Fundação Rotária, foram investidos mais de US$ 96 mil para equipar a cozinha da Casa das Mulheres.

“Eu já conheço a Rede de Desenvolvimento da Maré há mais de 20 anos”, destaca Christa Bohnhof-Grühn, associada do Rotary Club do Rio de Janeiro. Alemã, Christa faz a ponte com os clubes de seu país de origem, que costumam buscar bons projetos para apoiar. “Eu conheço a Redes e sei que sempre estão precisando de alguma coisa. Então, pergunto a elas se têm alguma necessidade e, assim, se desenvolvem esses projetos”, conta.

O investimento permitiu a compra de equipamentos como batedeira, fermentadora, modeladora de pão, fatiadoras de pão, bancadas para cozinha, moedor de carne, embaladora à vácuo e outros.

Com a cozinha equipada, foi possível oferecer oficinas de gastronomia a 120 mulheres. As oficinas incluíam aulas de gastronomia básica e avançada, e também de gestão. Mariana Aleixo, coordenadora do projeto Maré de Sabores, conta que os resultados das oficinas vão muito além da conquista de uma vaga de emprego.

“Para nós, o impacto do projeto é também quando essas mulheres retomam os estudos, quando elas acabam saindo de ciclos de violência a partir dessas referências produzidas aqui na casa”, diz.

A procura pelas oficinas é grande, aponta Mariana. Segundo ela, cada turma aberta oferece 40 vagas, mas recebe cerca de 300 inscrições. O processo de seleção leva em conta diferentes fatores.  “A gente faz entrevista com essas 300 mulheres. No processo de entrevista, participam uma psicóloga ou uma assistente social e uma pessoa que é instrutura do Maré de Sabores. Então, é uma pessoa técnica e uma pessoa para ver as dimensões sociais dessas mulheres”, explica a coordenadora.

Para ilustrar o impacto que a formação em gastronomia tem na vida das mulheres da Maré, Mariana conta um pouco sobre a economia da região. “A Maré tem 3182 empreendimentos comerciais, 1118 são de alimentação. A gastronomia é um forte setor econômico, e nós estamos fortalecendo esse setor, fortalecendo as mulheres para elas empreenderem e trabalharem dentro do território com alimentação”, destaca.

Merendeiras

Com o sucesso dessa parceria, este ano, teve início um novo projeto entre o Rotary Club do Rio de Janeiro e o Maré de Sabores. Dessa vez, a iniciativa contou com o apoio do Rotary Club de Wiesbaden, também da Alemanha.

O novo projeto visa capacitar merendeiras escolares no preparo de uma alimentação com mais qualidade para os alunos. “A rede nos apresentou esse projeto, atender as merendeiras para que aprendessem a cozinhar uma comida mais saudável para as crianças. Achamos interessante e decidimos fazer”, destaca Christa.

De acordo com Mariana, a Maré conta com 50 escolas, sendo apenas quatro de ensino médio. Enquanto isso, 25% da população está em idade escolar. Ela lembra que a escola precisa ser um ambiente que garanta a segurança alimentar das crianças, e ressalta a importância do papel das merendeiras nessa questão ao apontar questionamentos que ajudaram a direcionar o projeto.

Mariana (dir.) é coordenadora do Maré de Sabores

“Geralmente, a merendeira não é referência dentro da escola (como costuma ser a diretora). Então, como a gente melhora a qualidade dessa alimentação nas escolas, como a gente colabora ou forma essas merendeiras para elas entenderem o papel fundamental que elas têm que é apoiar outras mulheres no território com a alimentação?”

Mariana lembra ainda que as refeições nas escolas são guiadas pelo Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), que prioriza o preparo com produtos in natura e minimamente processados. No projeto em parceria com o Rotary, ela conta que as merendeiras também são preparadas para pressionar para que as escolas não recebem alimentos processados.

Para ajudar nesse processo de formação das merendeiras, o projeto contempla ainda o trabalho de uma arteterapeuta e de uma nutricionista, além de aulas que abordam questões de gênero. O objetivo é oferecer uma formação completa às merendeiras, com capacitação também para bordado e em questões sociais. As aulas de gênero também são oferecidas a pais de alunos e estudantes adolescentes.

Esse segundo projeto teve um investimento de US$ 74,8 mil e contou com aporte de diferentes clubes da cidade do Rio de Janeiro, da Alemanha e financiamento da Fundação Rotária.

Buffet e livro de receitas

Além da capacitação de empreendedoras e merendeiras, o apoio do Rotary ao projeto Maré de Sabores permitiu ainda o desenvolvimento de um serviço de buffet, que atende instituições, universidades e eventos privados.

O serviço emprega mulheres formadas nas turmas de capacitação e também ajuda a financiar o projeto para que ele siga em funcionamento.

“O Rotary é muito generoso. Ele vai percebendo quais as demandas que a gente consegue identificar no território e vai nos dando meios de executar o que a gente que precisa desenvolver. Porque a rede vai produzindo projetos a partir das demandas que aparecem no território”, aponta Mariana.

Outro resultado planejado para essa parceria é a publicação de um livro de receitas desenvolvido a partir das receitas criadas durante a capacitação com as merendeiras.

A publicação, no entanto, ainda vai levar um tempo para sair, já que as aulas estão em andamento e o projeto deve seguir até setembro do ano que vem.

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