Do Rotary à ONU: a trilha de uma bolsista brasileira

Por Luiza Teixeira, especialista em Proteção à Criança do Unicef. Foi participante do intercâmbio de jovens do Rotary e recebeu a Ambassadorial Scholarship for Low Income Countries, com a qual fez mestrado em Direito do Desenvolvimento Internacional e Direitos Humanos na Universidade de Warwick, no Reino Unido.

Luiza Teixeira recebeu a Ambassadorial Scholarship for Low Income Countries

Sempre me senti bastante metódica e organizada. Lembro que aos 10 anos de idade decidi que estudaria Direito quando entrasse na faculdade. Essa decisão veio porque desde então me sentia dotada de um forte senso de justiça, mas também porque sempre gostei muito de ler e escrever.

E, assim, me convenci que a área do Direito era a orientação correta para minha carreira profissional e para me realizar como cidadã. Defini, então, isso como meta e tracei meu caminho para alcançá-la.

No meu projeto de formação estudantil, tive a oportunidade de concluir o ensino médio nos EUA, graças ao programa de intercâmbio de jovens do Rotary. Quando retornei ao Brasil, entrei na faculdade de Direito da Universidade Federal de Mato Grosso, conforme o planejado, mas para a minha surpresa, o curso se mostrou muito aquém do que imaginei.

Me senti deslocada naquele ambiente universitário, desinteressada pelas matérias e decepcionada por perceber que o Direito, nem sempre, dizia respeito à justiça. A cada ano que passava, eu gostava menos do curso e me sentia mais perdida: e agora? Eu não tinha um plano B, o que iria fazer?

Uma noite, não me lembro bem por que, estava lendo algumas informações na Internet, quando encontrei alguns artigos do Rotary que falavam sobre paz, resolução de conflitos e direitos humanos. E uma luz se acendeu em mim. Corri para o meu pai, que sempre foi o maior incentivador da minha carreira jurídica, e lhe disse: encontrei! É com isso que eu quero trabalhar!

Eu não sabia muito bem o que eram “direitos humanos”, mas ao ler aquelas informações percebi que com aquele ideal, na área do Direito, eu poderia trilhar um caminho diferente, mais satisfatório à minha busca. Eu poderia entender e viver aquele senso de justiça que me era tão caro quando eu era mais nova e moldar isso numa carreira que me possibilitasse ajudar outras pessoas.

Mas na faculdade não havia a disciplina curricular específica de Direitos Humanos e no Brasil, naquela época, também não havia cursos nessa área. Foi então que percebi que, talvez, o Rotary, que já havia me proporcionado a grande oportunidade de ter uma experiência educacional internacional, também poderia me ajudar nessa nova caminhada para realização de meu sonho e concretização de meu projeto profissional.

Comecei um longo processo de pesquisa e acabei descobrindo que a Fundação Rotária oferecia bolsas de estudos para mestrado, no exterior. Dentre as bolsas disponíveis, havia um programa específico chamado Bolsas Rotary pela Paz, um curso de 2 anos de duração sobre paz e resolução de conflitos em universidades afiliadas ao programa em diversos países.

A ideia de viver fora outra vez, de conhecer novas culturas e ampliar meus horizontes e minha visão de mundo, era algo que me atraía muito. Fiz, então, contato com o Distrito Rotário da minha região e com um dos clubes da minha cidade. Em uma carta, expliquei sobre a minha busca, sobre o meu interesse na bolsa de estudos e sobre o porquê de me achar uma boa candidata para representar o Distrito 4440 (Mato Groso) fora de nosso país.

Para a minha surpresa, ninguém conhecia o programa de bolsas de estudos do Rotary e o clube que contactei me informou que não se envolveria no processo de candidatura. Por sorte, o governador do Distrito à época, Sr. Serafim Carvalho, se interessou pela minha carta e acionou para me ajudar, um sócio muito atuante de outro clube, Sr. Antônio Zago, que viria a se tornar meu orientador em todo o processo.

Eles pesquisaram a respeito da bolsa, dos processos de aceitação, do tipo de apoio que o clube e distrito precisavam oferecer e juntos fomos desvendando os caminhos. Fiz meu application e enviei, esperando ansiosamente por uma resposta.

Meses depois, recebi uma ligação do Sr. Zago dizendo que sentia muito, mas que eu não havia sido selecionada para a bolsa. Lembro-me que estava no trabalho e comecei a chorar, ali mesmo. Foi uma atitude pouco profissional, talvez. Mas nos altos dos meus 20 e poucos anos, eu tinha tanta certeza que esse era o caminho correto, que não podia aceitar a possibilidade de meu projeto não dar certo. Senti-me perdida novamente e fiquei assim por algumas semanas.

Até que recebi um email inesperado da sede do Rotary diretamente dosEUA. Abri e li a primeira frase: “We are pleased to inform you that the Trustees of The Rotary Foundation (TRF) have approved your application for a 2008-09 Ambassadorial Scholarship funded by the Scholarships Fund Pool for Low-Income Countries”. Meu coração disparou e comecei a tremer.

Liguei para o Sr. Zago para contar que eu tinha conseguido a bolsa, e lembro-me dele me dizendo: “não, Luiza, eu sinto muito, mas você não foi selecionada, lembra? Não deu certo, mas vamos tentar novamente no ano que vem.” Minha alegria era tamanha que eu nem conseguia explicar: “Sr. Zago, é outra! Consegui outra bolsa!!!”

A partir daí, se iniciou um outro processo, de busca e escolha pelo curso que eu gostaria de fazer e das burocracias para poder me mudar para outro país. O curso escolhido foi o mestrado em Direito de Desenvolvimento Internacional e Direitos Humanos da Universidade de Warwick, no Reino Unido, uma das mais renomadas instituições de ensino superior do país.

Durante todo o processo, tive o apoio incansável dos membros do Rotary Club Cuiabá e do Distrito 4440, em especial do meu orientador Sr. Antonio Zago. E, com isso, embarquei no que foi uma das experiências mais ricas e incríveis da minha vida.

O que sempre gostei no Rotary é que seus programas internacionais oferecem uma ampla rede de apoio para os participantes: membros do clube e distrito patrocinadores apoiam toda a fase de preparação dos candidatos, membros do clube e distrito anfitrião os apoiam durante sua adaptação e vivência da experiência no país de destino e você ainda tem contato com estudantes de várias partes do mundo.

No período dos meus estudos, embora houvesse 80 bolsistas do Rotary no Reino Unido, eu era a única representante da América Latina, o que aferiu ainda mais responsabilidade ao meu papel como bolsista.

O Rotary também oferece orientações baseadas em sua filosofia e missão, que particularmente para mim tinham tudo a ver com o que eu acreditava enquanto pessoa e com o que eu objetivava enquanto profissional.

As orientações que recebi da organização também ajudaram muito na compreensão da responsabilidade que uma experiência como essa acarreta: afinal, você se torna um representante informal de seu país e precisa se portar com respeito e integridade para que as conexões que você estabelecerá como bolsista possam gerar frutos positivos não só para você, mas para seu distrito patrocinador e para os candidatos que virão após você.

Há, ainda, uma expectativa de que você se envolva com a cultura local, que conheça o trabalho do Rotary no país anfitrião e que estabeleça essa ponte inter-cultural entre países. Ou seja, é uma experiência e oportunidade que envolve muita responsabilidade e consciência do bolsista.

Para cumprir as condições da minha bolsa, além de passar no curso, eu precisava também fazer pelo menos 4 apresentações em clubes diferentes do Distrito anfitrião, objetivando compartilhar um pouco da minha cultura, explicar o que era o Rotary no Brasil e o que significava a experiência de ser uma bolsista do Rotary. Tamanho foi o meu entusiasmo pela organização e significado do Rotary e pela oportunidade que me foi dada, que acabei fazendo 18 apresentações ao longo de um ano. Me propus até a ensinar alguns rotarianos ingleses a dançar!

Viver essa experiência foi um sonho que eu não poderia ter realizado se não fosse a oportunidade que me foi dada pelo Rotary Internacional. Ali, me descobri enquanto pessoa, fiz amizades que até hoje fazem parte da minha vida, vivi experiências culturais incríveis e adquiri muito conhecimento.

Foi graças a essa experiência que comecei a fixar as bases de quem hoje sou, pessoal e profissionalmente, pois quem atua na área de direitos humanos não tem como dissociar uma coisa da outra.

A bolsa do Rotary foi o primeiro e mais fundamental passo que dei para seguir o caminho profissional que sonhava. O Rotary me deu a oportunidade de conseguir uma qualificação que me destacava de outras pessoas da minha área. E foi a partir daí, passo a passo e com muita persistência, que anos depois consegui o emprego dos meus sonhos.

Fiz outro mestrado, morei em outros países, trabalhei em diversas áreas e hoje atuo com direitos das crianças e dos adolescentes na Organização das Nações Unidas. Além disso, tenho um blog de viagens onde conto minhas experiências vivendo no exterior e conhecendo outros países e culturas.

Minha gratidão eterna ao Rotary e aos seus associados que me permitiram fazer da minha vida e do meu trabalho um instrumento para tentar ajudar outras pessoas.

Uma resposta em “Do Rotary à ONU: a trilha de uma bolsista brasileira

  1. Querida Luiza!!!
    Você é muito persistente, corre atrás quando quer algo. Nunca vi tamanha determinação e dedicação nos seus estudos. Parabéns. ROSE

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s